terça-feira, 9 de março de 2021

Vozes ao vento das almas.

Sobreviventes do tsunami ligam para os entes falecidos usando o "telefone do vento".


Otsuchi, Iwate - Num jardim perto da colina, sob os ramos largos de uma cerejeira, uma cabine telefônica branca brilha reluzente durante o início da primavera.

Sobreviventes do tsunami ligam para os entes falecidos usando o "telefone do vento".
Uma pessoa telefonando para seu falecido amigo. Foto: Reuters.


Dentro da cabine, Kazuyoshi Sasaki contorce o seu corpo, segura o fone e disca cuidadosamente o número do telefone celular da sua falecida esposa Miwako. 

Na sua conversa com a esposa, ele explica como a procurou por vários dias após o terremoto e o devastador tsunami destruir a cidade. Ele visitou centros de evacuação, necrotérios improvisados e sempre voltava para sua casa à noite, tentando procurá-la nos escombros.

"Aconteceu tudo muito de repente e não consigo esquecer até agora. Eu mandei uma mensagem no seu celular dizendo onde eu estava, mas você Miwako nunca verificou o meu recado", diz Kazuyoshi chorando ao telefone.

"Quando voltei para nossa casa destruída durante a noite, olhei para o céu. Havia milhares de estrelas como se toda aquela escuridão fosse uma caixa de joias. Eu chorei, chorei  e, naquele momento, me dei conta de que muitas pessoas deveriam ter morrido também",  disse o homem de 67 anos.

A esposa de Kazuyoshi foi uma das quase 18.000 vítimas mortas no nordeste do Japão durante o terremoto seguido por um tsunami ocorrido em 11 de março de 2011.

Assim como milhares de outras pessoas nas comunidades costeiras devastadas, Kazuyoshi não perdeu apenas a sua esposa, mas também outros parentes e amigos.

Muitos sobreviventes do 11 de março dizem que a cabine telefônica os ajuda a manter contato com os seus entes queridos. Além disso, a cabine traz algum tipo de consolo enquanto as pessoas lutam contra as suas dores e perdas.

Solidão e saudades.


No começo da manhã, Sachiko Okawa entra na cabine telefônica e faz uma ligação para Toichiro, seu falecido marido com quem foi casada por 44 anos. Na ligação, ela pergunta o que ele tem feito desde o dia que foi arrastado pelo tsunami, dez anos atrás.

"Toichiro, eu estou sozinha", diz ela com voz embargada. Em seguida, ela pede ao marido para zelar pela família e finaliza: "Tchau por enquanto, voltarei em breve."

Okawa diz que, às vezes, sente que consegue ouvir o marido do outro lado da linha.

"Isso me faz sentir um pouco melhor", diz a senhora de 76 anos.

Okawa ficou sabendo da cabine através de amigos e, desde então, costuma trazer os dois netos para que eles também possam conversar com o avô.

"Vovô, já se passaram 10 anos e em breve estarei estudando no ginasial", diz Daina, neto de Okawa. 

Enquanto todos se espremem dentro da cabine, o menino diz ao avô: "Tem um novo vírus que está matando muitas pessoas aqui e, por isso, estamos usando máscaras. Não se preocupe, estamos todos bem."

O telefone do vento.


Itaru Sasaki construiu a famosa cabine telefônica dentro do seu jardim na cidade de Otsuchi, província de Iwate. Ele teve a ideia de fazer a cabine após a morte de seu primo que estava com câncer. Isso aconteceu alguns meses antes do grande terremoto de 11 de março.

"Tem pessoas que não conseguem se despedir daqueles que estão para morrer. Muitas famílias gostariam de ter dito alguma coisa especial no final da vida do ente querido", disse Itaru.

Agora, a cabine telefônica atrai milhares de visitantes de todo o Japão. Não é usada apenas pelos sobreviventes do tsunami, mas por pessoas que perderam parentes por doenças e suicídio. A cabine foi nomeada como "telefone do vento" e a sua história inspirou um filme recentemente.

Alguns meses atrás, Itaru disse que foi abordado por pessoas que desejavam instalar telefones semelhantes na Grã-Bretanha e na Polônia. Assim, as famílias poderiam telefonar para os falecidos parentes vítimas do coronavírus.

A história de amor.


Kazuyoshi Sasaki viveu e amou a sua esposa Miwako durante a maior parte de sua vida. Ele confessou o seu amor por ela quando os dois estavam no colégio. Ele a pediu em namoro, mas a sua futura esposa o recusou prontamente. Levou mais 10 anos para que os dois começassem a namorar. Logo depois, eles se casaram e tiveram quatro filhos.

Sobreviventes do tsunami ligam para os entes falecidos usando o "telefone do vento".
Kazuyoshi Sasaki chora enquanto fala com a sua falecida esposa na cabine telefônica. Foto: Reuters.

Ao telefone, Kazuyoshi explica à sua esposa que recentemente ele saiu de um alojamento temporário. Diz também que o filho mais novo está construindo uma casa nova. Ele irá morar junto com o filho e verá os netos todos os dias.

Antes de desligar, Kazuyoshi diz a Miwako que um exame de saúde recente mostrou que ele havia emagrecido.  

"Eu vou tomar conta de mim", diz ele prometendo à esposa enquanto um vento forte sopra do lado de fora da cabine. E finaliza: "Estou tão feliz por falar com você, obrigado. Estamos todos fazendo o possível. Conversaremos em breve."


 Fonte: Japan Today.


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segunda-feira, 8 de março de 2021

Minha casa, minha trilha.

Artista caminha cerca de 5.000 quilômetros pelo Japão carregando a sua "própria casa".


Kanazawa - Após o Grande Terremoto e Tsunami do Leste do Japão em 2011, o artista Satoshi Murakami, 32 anos, tomou a iniciativa de levar uma vida itinerante de uma forma bem inusitada: carregar a sua "própria casa nas costas" por todo o país. 

Artista caminha cerca de 5.000 quilômetros pelo Japão carregando a sua "própria casa".
Satoshi Murakami carrega a sua casa na península de Noto. Foto: Museu de Arte Contemporânea do Século 21, Kanazawa. 

Murakami chama a sua prática de carregar uma pequena casa como "migração viva". O seu ato é uma forma de repensar fundamentalmente o que é a vida. A sua jornada pelo Japão o levou a adquirir a experiência em trocar uma residência fixa por uma móvel.

A sua inspiração em levar a vida desse jeito, veio através do desastre natural de 11 de março de 2011. Naquela época, Murakami era estudante da Universidade de Arte e Arquitetura de Musashino, em Tóquio. A visão da destruição provocada pela força da natureza fez o artista refletir sobre a nova realidade das áreas afetadas. Muitas pessoas perderam suas casas por causa do gigantesco tsunami que varreu cidades inteiras. E muitas outras pessoas foram retiradas de suas casas por causa do vazamento radioativo da usina nuclear de Fukushima.

"Nossa sociedade se tornou mais vulnerável do que se imaginava. Por que não tento viver sem estar vinculado a um determinado local de residência?", disse Murakami.

Pensando dessa forma, Murakami tornou-se cético em relação a nossa sociedade, preocupada em ter um domicílio para poder viver.

Em abril de 2014, o artista começou a levar o seu plano adiante. Foi até uma loja de ferragens e comprou madeiras, pranchas de espuma plástica e outros materiais. Ele construiu uma residência portátil. Toda a estrutura da pequena casa pesa cerca de 10 quilos e tem telhas, porta com fechadura e placa de identificação.

Murakami saiu de Tóquio com a sua pequena casa, algumas peças de roupas limpas e um saco de dormir na mochila. Desde então, ele visitou as regiões de Tohoku, Kansai e Kyushu. Com a casa nas costas (ou na cabeça...), foram cerca de 300 "mudanças de endereço" feitas ao longo do caminho. Ele caminhou cerca de 5.000 quilômetros carregando a sua casa.

Em uma comunidade atingida pelo tsunami na região de Tohoku, Murakami teve a oportunidade de deixar a sua casa no local de uma propriedade destruída. Na província de Kumamoto, que foi atingida por dois terremotos em 2016, ele colocou a sua pequena casa no local onde tinha uma casa destruída por um abalo sísmico.

O artista percorreu as áreas de desastres porque queria gravar cenas dessas áreas em sua memória. 

Em sua vida de viajante, Murakami passou por vários tipos de situações. Muitas pessoas não entendiam o que ele estava fazendo. Quando ele procurava um lugar para dormir, algumas pessoas o recebiam com frieza. Os que cruzavam com ele, ficavam surpresos ao ver um homem carregando uma casa portátil. Muitos olhavam para ele de forma estranha. Vários policiais já o interrogaram querendo saber a razão da sua estranha peregrinação.

"Ruas e cidades ficam com uma aparência diferente quando estou vivendo assim. Alguns me tratam como uma figura suspeita e outros zombam de mim. Isso me traz lições de vida", disse Murakami.

O artistas também passou por situações positivas. Durante a sua viagem pelo Japão, ele publicava um diário no seu blog. Muitas pessoas que leram o seu diário, postavam as suas fotos no Twitter. Através da rede social, muitos estranhos o convidavam a visitar a suas casas. Ele inclusive foi presenteado com coisas de comer e cartas de encorajamento, fazendo-o refletir sobre a bondade das pessoas.   

Durante a sua jornada, Murakami percorreu cerca de 20 quilômetros por dia carregando a sua casa. Recentemente, o artista esteve na estrada por um mês, até meados de dezembro, na província de Ishikawa. Nesta província, exatamente na capital Kanazawa, estava sendo realizada a sua primeira exposição sobre a sua aventura chamada "Living Migration" (Vivendo a migração).

Artista caminha cerca de 5.000 quilômetros pelo Japão carregando a sua "própria casa".
"Living Migration" - exposição de Satoshi Murakami sobre sua aventura. Foto: Museu de Arte Contemporânea do Século 21, Kanazawa. 

A experiência de Murakami já rendeu a publicação de um livro de fotos intitulado "Ie wo seotte aruku" (Caminhando com uma casa nas costas.). Ele também é autor de outro livro intitulado "Ie wo seotte aruita" (Eu caminhei com uma casa nas costas.).

"Em qualquer residência em que você mora, mude a maneira como você vive. A mudança pode assumir uma aparência totalmente diferente. Espero que as pessoas pensem sobre isso através do que eu fiz", disse Murakami.


Fonte: The Asahi Shimbun. 

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