sábado, 24 de julho de 2021

E começa oficialmente os Jogos de Tóquio!

Aberta a 32º edição das Olimpíadas, o primeiro evento olímpico da era coronavírus.


Tóquio - O ano de 2020 não foi fácil para o Japão. Após o adiamento dos jogos olímpicos no ano passado e de vários problemas que foram surgindo com o passar dos meses, as Olimpíadas de Tokyo começaram finalmente nesta sexta-feira, 23 de julho.

Aberta a 32º edição das Olimpíadas, o primeiro evento olímpico da era coronavírus.
A tenista Naomi Osaka acende a pira olímpica dos Jogos de Tóquio 2020+1. Foto: Getty Images.

Durante a cerimônia de abertura, com o Estádio Nacional quase vazio, o imperador do Japão, Naruhito, formalizou o início dos jogos olímpicos. Estavam presentes apenas um número limitado de pessoas importantes como oficiais do Comitê Olímpico Internacional (COI), oficiais do Comitê Olímpico Japonês e autoridades estrangeiras e do Japão. 

Desde o início de junho, o maior desafio das Olimpíadas de Tóquio é impedir a disseminação da COVID-19 durante as competições. E não vai ser tarefa fácil. O evento está envolvendo  cerca de 11.000 atletas de mais de 200 localidades do mundo. Mas uma atitude drástica já foi tomada antes da abertura dos jogos: a proibição do público nos estádios e ginásios olímpicos. Os Jogos de Tóquio estão sendo a primeira olimpíada sem espectadores da história dos jogos.

Embora os organizadores das olimpíadas esperem que o evento simbolize a solidariedade global e a vitória sobre a COVID-19, aparentemente não é bem assim que está acontecendo. Durante os últimos seis meses, Tóquio tem lutado contra o aumento do número de casos de COVID-19, estando a metrópole no seu quarto estado de emergência.

Na abertura dos jogos, durante o desfile das delegações, todos os atletas usavam máscaras faciais e acenavam para todos os lados, demonstrando entusiasmados diante de um estádio com poucas pessoas presentes.

Os atletas foram aparecendo no estádio conforme a ordem dos países determinada pelo alfabeto da língua japonesa. A maioria das delegações foi liderada por um porta-bandeira masculino e um feminino. É a primeira vez que isso acontece, depois que o Comitê Internacional Olímpico (COI) mudou as suas regras no ano passado para impulsionar a representação igualitária de gênero.

As apresentações artísticas da cerimônia tiveram como destaque a cultura japonesa, mostrando o artesanato, a comédia japonesa, os festivais de verão (matsuri), o teatro japonês (kabuki) e a diversidade da população do Japão. 

Os arcos olímpicos que foram aparecendo durante a cerimônia, são feitos com madeira  de árvores plantadas em 1964, ano em que Tóquio sediou a sua primeira olimpíada.

Um momento de silêncio foi adicionado na cerimônia, lembrando daqueles que morreram vítimas do coronavírus. Também teve homenagem aos atletas israelenses mortos no atentado terrorista dos Jogos Olímpicos de Munique em 1972.

Uma parte da apresentação destacou os atletas que treinaram para as olimpíadas durante a crise global de saúde, com destaque para uma boxeadora que trabalhou como enfermeira.

Outro destaque da festa foi a apresentação de um grupo de atores e mímicos que representaram com humor os pictogramas, os símbolos dos 50 esportes olímpicos dos Jogos de Tóquio.

Um dos momentos mais marcantes da noite foi a apresentação de 1.824 drones que iluminaram o céu sobre o estádio e formaram o símbolo dos jogos. Durante o show dos drones, artistas como Angelique Kidjo, John Legend, Keith Urban e Alejandro Sanz cantaram, num vídeo mostrado num telão, uma versão da famosa canção "Imagine" de John Lennon. Logo em seguida, os drones que estavam no céu se juntaram e se transformaram no planeta Terra sobre o estádio. Um show impressionante.

E a tenista japonesa/americana Naomi Osaka teve um papel importante na abertura dos jogos. Carregando a tocha olímpica, a tenista subiu as escadas de uma alegoria que lembra o Monte Fuji e, no topo da "montanha", acendeu a pira olímpica, com o formato de um sol. Este foi o momento final da cerimônia de abertura.

Os Jogos de Tóquio terão um recorde de 33 modalidades esportivas, compostas por 339 eventos. O caratê fará a sua estréia olímpica junto com o surfe, o skate e a escalada esportiva.

O custo de sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Japão aumentou drasticamente por causa da pandemia do coronavírus. Tendo inicialmente um custo total de 734 bilhões de ienes (US$ 6,67 bilhões), a conta foi para 1,64 trilhões de ienes, valores baseados no relatório do comitê olímpico mais recente de dezembro de 2020.


Fontes: Kyodo News / UOL.



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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Os marginalizados das Olimpíadas.

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, o governo decide remover os homeless das ruas de Tóquio.


Tóquio - Antes da realização da cerimônia de abertura das Olimpíadas no dia 23 de julho, os oficiais do governo metropolitano de Tóquio trataram de realizar "uma limpeza" na área onde se localiza um grande número de moradores de rua na capital. 

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos, o governo decide remover os homeless das ruas de Tóquio.
Moradores de rua acampados numa rua de Shinjuku adornada com bandeiras olímpicas, Tóquio. Foto: Takaki Fujino.

Centenas de pessoas em situação de rua no centro de Tóquio receberam avisos de despejo. Essas pessoas não têm endereços fixos e nem um lugar para onde ir. 

Um homem de 62 anos (identidade mantida em sigilo) que viveu perto do prédio do governo metropolitano de Tóquio por um mês, no distrito de Shinjuku, disse que um funcionário do governo o abordou na rua e entregou um bilhete de "despejo" no dia 8 de julho.

"Remova os seus pertences até o dia 21 de julho porque as suas coisas estão obstruindo a rua. Região gerenciada pelo governo metropolitano de Tóquio", dizia o bilhete.

Quando o sem-teto questionou o oficial sobre a razão da data limite de permanência no local, ele teve a seguinte resposta: "Porque há um evento relacionado às Olimpíadas".

O evento que o oficial se referiu é, na verdade, a chegada da tocha olímpica no prédio do governo metropolitano, no dia 23 de julho. Esse evento está programado algumas horas antes do início da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.

A informação sobre a desocupação do lugar desanimou o morador de rua e, também, esvaziou profundamente seu espírito olímpico.

O senhor sem-teto se mudou para Tóquio na infância, quando tinha 10 anos de idade. Na juventude, ele praticou bastante futebol quando era estudante do ginásio e colegial.

Depois de terminar o ensino médio, tornou-se motorista de caminhão e viajou por todo o Japão.

Em 2016, quando o senhor assistia à cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro pela televisão de seu apartamento, ele se deparou com a cena do ex-primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, representando o famoso personagem Super Mario. Estava dado a partida para as Olimpíadas no Japão.

A aparição do ex-primeiro-ministro japonês no evento brasileiro fez o coração do senhor disparar: "Tóquio é a próxima!", exclamou ele.

Cerca de dois anos atrás, o pobre senhor pediu demissão de seu último emprego por problemas ligados ao trabalho. Ele logo acabou gastando toda as suas economias e foi parar nas ruas como um homeless.

Encontrar um novo emprego tem sido difícil para o senhor sem-teto. Ele tem dependido de ajudas de grupos de apoio para poder se alimentar.

O que antes era felicidade, agora é tristeza e uma crise existencial diante das Olimpíadas de Tóquio. "Para onde devo ir?", indagou o senhor.

Homeless sob bandeiras olímpicas.


Lonas azuis e caixas de papelão, próximas do prédio do governo metropolitano de Tóquio, são lembretes onipresentes de que muitas pessoas foram deixadas de fora da riqueza da movimentada capital.

Homens, mulheres, jovens e idosos deitam-se ou sentam-se de pernas cruzadas nas calçadas das ruas movimentadas da metrópole.

Sob as cabeças dos moradores de rua, bandeiras promovendo as Olimpíadas de Tóquio balançam com o vento. Às vezes, algum veículo adornado com o logotipo "Tóquio 2020" passa diante dos olhos de um sem-teto.

Um outro morador de rua, com aproximadamente 30 anos e identidade mantida em sigilo,  se inscreveu na ajuda da assistência pública da prefeitura e encontrou um lugar para ficar no início de julho.

Um oficial da prefeitura providenciou para que o jovem sem-teto ficasse em um hotel. Mas uma condição foi imposta: ele deveria deixar o hotel no dia 22 de julho.

O hotel, onde o jovem sem-teto ficaria até o dia 22, estava garantindo quartos para hóspedes das Olimpíadas. Mas, com o banimento dos espectadores nos estádios e ginásios olímpicos durante os jogos na capital, o rapaz acabou recebendo uma espécie de "indulto" para permanecer mais tempo no hotel.

Embora o jovem sem-teto ainda tenha um lugar para ficar, a provação deixou-o um tanto amargo com a situação.

"Sem emprego, estou em uma situação vulnerável. Não pude nem reclamar quando disseram que isso era para as Olimpíadas", disse o rapaz.

De acordo com o Tsukuroi Tokyo Fund, um grupo de apoio aos cidadãos na capital, as autoridades japonesas têm adotado abordagens mais duras contra os moradores de rua desde 2013, quando Tóquio foi nomeada a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2020.

Os parques de Tóquio foram fechados e iluminados durante à noite para desencorajar os sem-teto de dormir no local.

Em janeiro de 2019, havia em torno de 1.126 moradores de rua vivendo em parques, em margens de rios e em prédios de estações de trem de Tóquio, de acordo com uma pesquisa do governo metropolitano.

Já em janeiro deste ano, o segundo levantamento contabilizou 862 pessoas em situação de rua. O paradeiro das outras 264 pessoas sem-teto que já não constam mais na lista é desconhecido.


Fonte: The Asahi Shimbun.



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