sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Vida dos trabalhadores estrangeiros.

Crise da COVID-19 afeta os trabalhadores estrangeiros no Japão.


Tóquio - Apesar do recorde de 1,72 milhão de trabalhadores estrangeiros no Japão em 2020,  a pandemia do coronavírus afetou a vida e os empregos de muitos deles.

A dura vida dos trabalhadores estrangeiros.
Estrangeiro trabalhando numa área agrícola do Japão. Fonte: Reuters. 

Devido a recessão econômica provocada pela pandemia, muitos estrangeiros estão com dificuldades financeiras e sem apoio necessário do governo japonês em ajudá-los durante a crise e o desemprego.

Raquel Garcia, filipina de 45 anos, é uma estrangeira com dificuldades no Japão. Até o ano passado, ela trabalhava na fábrica da Sharp Corp. da cidade de Taki, província de Mie, quando foi demitida.

Garcia tinha trabalhado durante 9 anos por uma empreiteira que fornecia mão-de-obra terceirizada para a fabricante de produtos eletrônicos.

Em meio à pandemia da COVID-19, Garcia foi dispensada da fábrica em agosto do ano passado e, logo em seguida, demitida da empreiteira em novembro junto com outros 100 funcionários. Muitos desses funcionários eram de cidadania filipina também.

"Por que nós, os estrangeiros, somos os primeiros a serem demitidos quando as empresas estão com dificuldades?", indagou Garcia, desde 2003 vivendo no Japão. A mesma pessoa disse: "A empreiteira simplesmente falou que os negócios estavam ruim e não havia perspectivas de melhoras por enquanto."

 Dependendo de doações de alimentos e da ajuda do seguro-desemprego, cujo valor é de 50% a 80% do salário médio dos últimos seis meses de trabalho do último emprego, Garcia precisou reduzir a quantidade de dinheiro que enviava mensalmente para as duas filhas que vivem nas Filipinas.

"Mal consigo pagar as minhas contas. Só queria ter um trabalho.", disse Garcia. As suas chances de encontrar um novo emprego estão bem limitadas. O seu pouco conhecimento da língua japonesa e sem carteira de motorista de carro no Japão, ela acaba se prejudicando na hora de achar uma recolocação no mercado de trabalho na cidade onde vive.

Um sindicato da província de Mie, na qual Garcia faz parte, dá aulas de japonês para estrangeiros e empresta dinheiro para quem deseja obter a carteira de habilitação japonesa.

Segundo o presidente do sindicato, Hojo Hirooka: "Embora o governo japonês diga que está buscando a coexistência entre japoneses e estrangeiros, o que se vê na prática é apenas um apoio limitado para estes últimos. Enfim, nenhuma medida eficaz para resolver o problema."

A Confederação Sindical do Japão, conhecida como RENGO (maior organização sindical do país), realizou em janeiro um evento para assessorar trabalhadores estrangeiros com problemas e dúvidas sobre contratos de trabalho, salários e outros assuntos trabalhistas.

Um dos participantes do evento da confederação era um filipino que trabalhou por 14 anos como empregado regular de uma empresa japonesa. Durante a consulta, ele reclamou do tratamento desigual dado aos estrangeiros e expressou medo de ser dispensado do trabalho novamente por consultar alguém do sindicato para resolver dúvidas sobre assuntos trabalhistas, de acordo com a pessoa que não quis se identificar.

Haruhisa Yamaneki, um alto funcionário da RENGO, pediu apoio urgente aos trabalhadores não-japoneses, dizendo que embora eles estejam em "uma posição fraca", muitos caíram em "uma situação mais difícil".

O governo japonês tem procurado aumentar o número de trabalhadores estrangeiros no país ano após ano. O Japão está lidando com uma escassez crônica de mão-de-obra causada pelo declínio da taxa de natalidade e pelo envelhecimento da população. 

O número de trabalhadores estrangeiros no Japão atingiu um recorde de 1.724.328 pessoas em outubro de 2020. O aumento foi de 4% em relação ao ano anterior.

O ritmo de aumento, no entanto, caiu em relação ao aumento registrado no ano anterior (13,6%) devido a pandemia no início do ano de 2020, segundo os dados do Ministério do Trabalho e Bem-Estar do Japão.

A maioria dos trabalhadores em solo japonês são residentes permanentes ou cônjuges de japoneses, totalizando 546.469 estrangeiros. Logo em seguida aparece os estagiários técnicos, com um total de 402.356 estrangeiros (aumento de 4,8% em relação ao ano anterior). E o novo visto de trabalho criado em 2019 para trabalhadores com "habilidades que requerem um certo grau de conhecimento ou experiência", atraiu ao país 7.262 novos estrangeiros.

O programa de estágio técnico patrocinado pelo governo japonês foi introduzido em 1993 com o objetivo de transferir conhecimentos do Japão para os países em desenvolvimento. Mas, no entanto, o programa já foi muito criticado por ser uma cobertura para as empresas importarem e explorarem mão-de-obra barata de outras nações asiáticas.

Yoshihisa Saito, professor associado de direito do trabalho da universidade de Kobe, destacou que alguns setores de trabalhos essenciais, como agricultura e enfermagem, têm tido dificuldades em recrutar trabalhadores japoneses devido ao nível de salários e os poucos benefícios oferecidos. A alternativa foi abrir as portas para os trabalhadores estrangeiros.

"Para resolver o problema fundamentalmente, é necessário estabelecer um melhor conjunto de condições e ambiente de trabalho, facilitando a vida de trabalhadores japoneses e estrangeiros." disse Saito.

    

 Fonte: The Mainichi 


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