domingo, 9 de janeiro de 2022

De visitante para residente.

A história de um jovem italiano que decidiu viver no Japão por causa da pandemia.


Tóquio - Em fevereiro de 2020, o italiano Leo Okuda Tomiselli, com 19 anos na época, veio ao Japão junto com um amigo para celebrar a formatura do ensino médio de ambos na Itália. Fascinados pela cultura japonesa, eles tinham planejado fazer um passeio pelo país durante 1 mês. Mas, com o surgimento da pandemia da COVID-19 pelo mundo, a nova doença mudou completamente o destino de Leo.

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A história de um jovem italiano que decidiu viver no Japão por causa da pandemia.
De turista para residente: Leo Okuda Tomiselli (esquerda) conseguiu o seu primeiro emprego de tempo integral no Japão em 2021. Ao seu lado, o presidente da empresa GIB Japan, Keiichiro Miyamoto. Foto: Mainichi.

Durante a visita pelo Japão, os dois recém-formados ficaram hospedados na casa de uma família japonesa em Ageon, cidade da província de Saitama. Nesse mesmo tempo em que eles estavam "turistando" por Tóquio, os casos de coronavírus acabaram se espalhando por todos os países. Quando Leo e o seu amigo se preparavam para voltar à Itália em 1 de abril de 2020, eles acabaram ficando presos no Japão, devido ao cancelamento da viagem de retorno.

Através de um comunicado da embaixada da Itália no Japão, Leo ficou sabendo que um voo especial de repatriamento estava programado para o final do mês de abril. Entretanto, a mãe de Leo, que vive na Itália, tentou convencer o filho a ficar no Japão, até que a situação da COVID-19 se normalizasse no mundo. Através de sua mãe, Leo ficou sabendo que a Itália estava passando por um grave surto de coronavírus. Se ele voltasse para Itália agora, ele não conseguiria sair de casa por causa do lockdown obrigatório imposto pelo governo italiano. Muitos italianos estavam morrendo até aquele momento e os hospitais estavam lotados de doentes. Além disso, muitas pessoas estavam perdendo seus empregos na Itália.

Preocupado com a situação, Leo decidiu permanecer no Japão. Enquanto isso, o seu amigo acabou embarcando no voo especial para Itália. Sozinho e sem dinheiro, o jovem conseguiu permissão para continuar hospedado, agora de graça, na residência de sua anfitriã, Misao Ito, em Saitama. Mas, por outro lado, Leo precisaria trabalhar para poder pagar a alimentação e outras despesas da casa.

Nascido e criado na Itália, Leo é filho de pai italiano e mãe japonesa. Como no início da pandemia ele estava com menos de 22 anos, Leo tinha cidadania italiana e japonesa, o que permitiria trabalhar no Japão. Quando se atinge os 22 anos, um cidadão de dupla cidadania, sendo uma japonesa e a segunda de outro país, o Japão obriga a pessoa a escolher uma nacionalidade permanente e descartar a outra, de acordo com a lei atual do país.

No entanto, o maior problema de Leo, naquele momento, era com a língua japonesa. Ele fala japonês muito bem, mas não consegue ler e escrever os ideogramas. Tendo se candidatado a vários empregos de meio período no Japão, ele não conseguiu nenhum trabalho por causa de sua limitação com a língua.

"Talvez você tenha mais chance de encontrar um emprego de meio período em Tóquio. Por que você não tenta uma faculdade ou um curso profissionalizante no Japão?", sugeriu Misao ao rapaz. Então, em julho de 2020, Leo se mudou para casa de uma conhecida de Misao, a senhora Chikako Ito, na cidade de Inagi, em Tóquio.

Quando Chikako abraçou a ideia de ajudar o jovem italiano, ela teve a seguinte convicção: "A primeira coisa que fiz, foi acostumá-lo à língua japonesa. Depois, ajudei a torná-lo independente para que ele pudesse viver sozinho. Além disso, apoiei Leo em termos de bem-estar mental e físico, mantendo contato com seus pais na Itália. Basicamente, eu tive que criar Leo para se tornar uma pessoa completa no Japão".

Chikako, ex-membro da comunidade de bairro, conhece muitas pessoas. Para interagir com a comunidade japonesa, ela levou Leo para uma aula de intercâmbio internacional em uma escola primária local. Ela também levou o rapaz para um evento em uma fazenda de um conhecido dela.

Depois de um tempo, Leo finalmente arranjou o seu primeiro emprego de meio período: serviço de limpeza em um hospital. Embora suas habilidades de leitura e escrita em japonês não tenham sido testadas, ele ficou um pouco desapontado com o trabalho. Na Itália, Leo tem formação técnica em computação. Ele é formado em uma escola secundária especializada em TI (tecnologia de informação). Na escola, Leo e seus amigos participavam de competições de programação todos os anos. No seu terceiro ano de curso, Leo conquistou o segundo lugar em uma competição regional na Itália. Naquele  momento no Japão, seu maior sonho era conseguir um trabalho na área de computação.

"Não importa o quanto bom você seja em computadores. Tenho certeza que muitas pessoas no Japão estão no mesmo nível que o seu", disse Chikako ao rapaz.

Depois do hospital, Leo teve outros empregos de meio período: trabalhou de atendente em uma loja de conveniência, separou garrafas plásticas em um centro de reciclagem e lavou pratos em um restaurante. Não ficou por muito tempo em nenhum desses trabalhos.

Em janeiro de 2021, Leo desabafou com Chikako: "Trabalho monótono não é para mim". No hospital, ele esquecia de retirar o lixo da limpeza. Na loja de conveniência, ele perdeu produtos e esquecia de dar o troco aos clientes. Na separação de garratas plásticas e na lavagem de pratos, ele perdia a concentração e levava muito tempo para concluir as tarefas. Leo foi repreendido tantas vezes que acabava sendo demitido dos empregos.

Diante do descontentamento do rapaz, Chikako decidiu encaminhar Leo a um emprego de meio período em uma empresa de TI, por meio de um conhecido dela. Em maio de 2021, Leo começou a trabalhar na GIB Japan, uma empresa de desenvolvimento de sistemas de informação com sede em Shinjuku, Tóquio.

"Leo é muito bom. Na sociedade japonesa, anos de experiência são frequentemente usados como parâmetro, mas Leo é considerado uma pessoa de boa cabeça, independendo de sua falta de experiência profissional", disse com um sorriso o presidente da empresa, Keiichiro Miyamoto.

Miyamoto acrescentou: "Ele pode aprender as coisas rapidamente. Acho que ele vai crescer muito na empresa".

Agora, Leo trabalha na criação de sites para internet e no desenvolvimento de sistemas. O patrão Miyamoto observa todo o seu trabalho e dá conselhos para o rapaz.

"É o tipo de trabalho que me interessa. Não me sinto desconfortável com a atmosfera da empresa", disse Leo.

Em dezembro de 2021, Leo foi contratado como funcionário em tempo integral pela empresa GIB Japan. No mesmo dia que saiu o novo status de Leo no trabalho, Chikako e o seu marido prepararam um jantar especial para o jovem: quiche de arroz com ostras e um bolo com recheio de morango e bastante chantilly.

Surpreso com a comida, Leo disse o seguinte: "Achei que o bolo era para comemorar o meu aniversário, mas isso já foi há algum tempo atrás. A propósito, eu esqueci de dizer aos meus pais na Itália que consegui um emprego de tempo integral". É Leo, parece que a comunicação ainda não está perfeita.

O ano de 2021 passou e Leo celebrou o seu segundo "oshogatsu" (ano novo) no Japão. "Eu tive várias experiências desde o dia que cheguei como turista ao Japão. Acho que amadureci um pouco mais durante esses quase 2 anos no país", refletiu Leo.


Fonte: The Mainichi.


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